Papo de criança é tudo #10

Eden e Millie são inseparáveis. Nesse dia estavam brincando de casinha: a Millie era a filha e a Eden era a mãe. Elas ficaram nessa brincadeira uns bons 10 minutos, até que a Millie quis mudar de brincadeira:

-Eden, agora eu vou ser a mãe e você vai ser o cachorro da casa.
-Ah não, Millie, eu vou ser a mãe e você vai ser o cachorro – retrucou a Eden. Mas a Millie não abriu mão:
-Mas Eden, eu tive a idéia primeiro, eu quero ser a mãe.

A Eden pensou um pouco e respondeu, saltitando pela sala:

-Ótimo, eu quero ser o cachorro, afinal nunca fui um cachorro na vida real.

Beaudy e Finn estavam conversando no jardim.  O Finn contou pro amigo que o cachorro do primo dele tinha morrido, ao que o Beaudy respondeu:

-Meu cachorro nunca morreu, nem uma vez ainda.

Mirrin é descendente de asiáticos e, portanto, tem cabelo preto e lisinho. Por várias vezes ela sentava no meu colo e ficava acariciando meus cachinhos. E sempre me perguntava:

-Porque seu cabelo é cacheado?
-Porque meu pai tinha cabelo cacheado, Mirrin.

Ela sempre ficava pensativa e depois perguntava:

-Mas porque o meu cabelo não é cacheado?
-Porque tanto o seu pai quanto a sua mãe têm cabelo liso. – E ela sempre finalizava o assunto expressando o desejo de ter cabelo cacheado. Até que um dia, após a cena toda se repetir mais uma vez, ela acrescentou:

-Eu queria mesmo é ter cabelo cacheado e da cor do arco-íris!

Elias e Louis estavam ocupadíssimos construindo um prédio no quintal. O canteiro de obras consistia de pás, tábuas de madeira, gravetos, pedras, carrinho de mão do tamaninho deles e cimento de lama e água. Num determinado momento, Elias sugeriu:

-Louis, vamos na loja comprar as janelas e as portas? – Mas o Louis estava muito ocupado levantando uma parede de pedras e respondeu sem nem levantar os olhos:

-Elias, será que dá pra deixar pra comprar isso no ano passado?

Era o meu primeiro dia trabalhando num jardim de infância Waldorf aqui em Sydney, o que é uma benção, pois estamos nessa cidade linda há apenas 3 semanas. René, um menino de constituição pequena e um brilho super vivaz no olhar, veio caminhando decidido na minha direção, segurou ambas as minhas mãos e me disse sorridente:

-Hoje é o seu dia de sorte!!!
-Que maravilha, René!
-Você sabe porque hoje é o seu dia de sorte?
-Não, René, não sei. Porque hoje é o meu dia de sorte?
-Porque hoje você vai brincar comigo e ser a minha melhor amiga!

Jarrah estava bastante irrequieto na hora do descanso que as crianças fazem após o almoço. Ele estava deitado no colchãozinho dele mas não parava de falar. Eu deitei ao lado dele e falei bem baixinho, quase sussurrando:

-Jarrah, algumas crianças já estão dormindo, nós precisamos fazer silêncio senão elas vão acordar.

Ele parou de falar na mesma hora e ficou olhando pra mim com interesse, até que falou bem baixinho:

-Você tem quatro olhos.
-Ué Jarrah, quando eu olho no espelho só vejo dois.
-Não, você tem quatro olhos. – retrucou de forma segura. Apontando o dedinho primeiro pro meu olho esquerdo, ele disse: – Um olho, dois olhos (apontando meu olho direito), três olhos, quatro olhos (os dois últimos apontando cerca de um centímetro abaixo de cada olho). Com os dois olhos de cima você enxerga quando está claro, e com os dois olhos de baixo você enxerga no escuro.

Quando chegamos no quintal numa ensolarada manhã de primavera, descobrimos um possum (marsupial australiano) morto perto do galinheiro. As crianças ficaram alvoroçadas. Juntos preparamos um ritual bonito pra enterrar o bichinho. As crianças ajudaram a cavar o buraco pra enterrá-lo e cantamos uma música de despedida enquanto tampávamos a pequenina cova. Assim que terminamos, algumas crianças debandaram e outras ainda ficaram por ali, conversando animadamente sobre o possum.  Foi quando a Ines, ao ver o Jackson enterrando a pá com força onde jazia o bichinho, disse:

-Jackson, não faça isso, você vai matar o possum. – E o Jackson respondeu confiante:
-Mas o possum já está morto. – E a Ines, indignada, retrucou:
-Mas se você continuar fazendo isso, o possum vai ficar mais morto.

 No meu último dia de trabalho no jardim de infância em que trabalhei até vir pra Sydney, as crianças fizeram desenhos pra me presentear. Na hora de irem pra casa, uma por uma elas vieram me abraçar. Quando chegou a vez do Terje, ele me abraçou bem apertado e com um sorriso lindo no rosto, disse:

-Karina, eu vou sentir saudades de você cem vezes!!!

Os posts publicados sob o título “Papo de criança é tudo” são frutos do meu contato com crianças nos jardins de infância Waldorf em que trabalho  ou já trabalhei aqui na Austrália. Elas têm de 3 a 5 anos e uma luz linda no coração!

 


2 Comments

  1. Bárbara

    Que ótimo saber que vc já encontrou trabalho em Sydney! Adoro essa sua série Papo de Criança é Tudo! Ainda mais com uma faladeirinha em casa agora. 🙂 beijos querida!

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  2. enio

    OI IRMA…MUITA LUZ NESSAS CONVERSAS NE,BEIJO…

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