De Sydney até Melbourne

Fizemos a viagem em dois dias. No primeiro o plano era dormir em Merimbula, uma cidade litorânea ainda no estado new South Wales, cuja capital é Sydney. Dirigimos durante todo o dia passando por paisagens constituídas basicamente por verdes pastagens e alguns morros baixos. O Astro-rei brilhou durante todo o dia.


Um trecho muito lindo do percurso foi a travessia da Rain Forest. Subimos muito até chegar à região de altas árvores, neblina, e clima bem mais frio. Paramos num mirante localizado no ponto mais alto da estrada antes de começamos a descer novamente desta vez rumo ao litoral.

Mirante no ponto mais alto da estrada bem no coração da bela vegetação da Rain Forest.

Chegamos em Merimbula por volta de 7 e meia da noite, cansados mas felizes pois poderíamos tomar um belo banho, jantar tranquilamente e ter uma boa noite de sono antes de seguir viagem no dia seguinte. Pura ilusão. Simplesmente não nos demos conta de que a cidade estava lotada devido ao reveillon. Fomos a vários hotéis e pousadas, sem sucesso. Nos aconselharam a tentar hospedagem em Bega, uma cidadezinha que fica a 30 Km de Merimbula. Assim fizemos, esperançosos. Chegamos em Bega antes de 9. Paramos em todos os hotéis pelos quais passamos e nada de disponibilidade. Um senhor muito simpático nos desanimou completamente, disse que não acharíamos vaga em nenhuma das cidades litorâneas na redondeza, mas poderíamos tentar viajar por mais 80km em direção ao interior para uma cidade da qual não lembro o nome, onde talvez conseguíssemos. Diego não tinha ânimo de dirigir nem mais 1 km quanto mais 80. Decidimos que dormiríamos no carro. Fomos em direção ao centro da cidade procurando um lugar mais seguro para estacionar o carro e vimos um bar com uma placa que dizia “hotel”. Resolvemos checar. A visão do interior do local não era nada animadora e Diego nem queria entrar, mas eu o convenci, já que qualquer cama era melhor que um banco de carro que nem poderia ser deitado devido às bagagens. Assim que abrimos a porta, recebemos uma lufada de ar carregado de álcool. Pensem num bar com uns dez gatos pingados completamente bêbados. Ao fundo a escada que levava aos quartos, localizados no andar de cima. Fomos conversar com a garçonete, super simpática, que nos disse ter apenas um quarto com cama de solteiro disponível no momento. Nossa, foi como ouvir que era um quarto com cama king size e travesseiros de pluma de ganso. Topamos na hora. Nem vale a pena entrar em detalhes quanto a baixa qualidade do quarto. Estávamos com fome, e não havia nem um único lugar aberto na cidade para vender um sanduiche sequer, nadica de nada. Nesse bar havia uma máquina de junk food (amendoim, batata frita), que foi o que comemos acompanhado de cerveja pra tentar matar a fome. Conseguimos descansar o mínimo necessário para prosseguir viagem. No dia seguinte saímos de Bega às 8 da manhã, passamos por lindas paisagens costeiras,.

Lindíssimo por do sol

Paisagem costeira que nos acompanhou durante grande parte da viagem

Chegamos em Melbourne por volta de 7 da noite, ansiosos para chegar na nossa casinha, conhecer a dona da casa, tomar um belo banho e cair na cama. Outra puríssima ilusão. Fomos recebidos calorosamente pela dona da casa, que nos pediu mil desculpas “mas a casa havia acabado de ser construída e seria necessário fazer uma limpeza.”. Estávamos anestesiados de cansaço. Entramos na casa e vimos uma camada de pó branco no chão (acho que as paredes tinham sido lixadas), não havia armários, nem cama, nem cadeiras, apenas uma geladeira. Minha vontade foi dar meia volta e ir para um hotel, mas precisávamos economizar grana. Ela sequer ofereceu ajuda para fazer a limpeza, apenas trouxe o aspirador de pó, um balde e um esfregão. Estava um calor de matar (algo em torno de 42 graus, um dos dias mais quentes que vimos até hoje). Eu e Diego limpamos tudo, sem questionar, loucos para acabar logo. Inflamos nosso colchão de ar (ainda bem que levamos), comemos pão com atum e leite de soja que ela nos deu, e dormimos com o ventilador em cima de nós. No dia seguinte tivemos que dar uma faxina no banheiro, que ficava fora da casa e também estava uma lástima. Eu não conseguia acreditar na situação, mas agia no automático. Esse dia era 31/12 e à noite fomos com ela e as duas filhas para a casa de uns amigos em Santa Kilda, coração de Melbourne na baía de Port Philip Bay para a noite de Reveillon. Compramos uma garrafa de vinho, comemos churrasco com batata assada e salada, e quase não conseguimos esperar a virada de tão cansados. Caiu uma tempestade fortíssima, que escureceu todo o céu de Santa Kilda. Assim começou nosso ano de 2010.


Ventania forte, tive que segurar o vestido.

Temporal armando antes da virada…

Moramos nessa casa por quase três meses. Fica situada em St. Andrews, uma área rural de Melbourne, lindíssima, natureza exuberante. Vários pássaros que nunca havíamos sequer imaginado existir, muitos cangurus, coelhos, e coalas – esses últimos infelizmente nunca vimos.


O cottage onde moramos durante os dois primeiros meses

Teo curtindo a luz do nascer do Astro Rei

Esse banquinho fica de frente para uma montanha linda

Beladona – um perfume delicioso!

Canguru que sempre nos visitava – foto tirada da janela da cozinha

Incontáveis coelhos na região

Últimas da fazenda...

Cada céu estrelado de babar

Últimas da fazenda...

Pôr-do-sol de outono – me lembra o céu de Brasília!

Apesar de toda a beleza natural, eu queria mudar de lá desde o primeiro dia. Banheiro fora de casa nunca mais. O xixi noturno era um problema pois para chegar ao banheiro precisávamos dar vários bons passos, correndo o risco de pisar em cocô de cachorro e cavalo. Aí adotamos um baldinho vermelho para ser nosso penico – sucesso total! Mas teve uma noite em que eu bêbada de sono, terminei de fazer meu xixizinho no penico, e na hora de colocar de volta no chão, deixei o penico virar. Nossa, escorreu xixi para todo lado. Acordei Diego e fomos nós de madrugada limpar xixi. Além disso, recebíamos visitas diárias de aranhas enooormes, até Diego fazer maravilhosas fly screens (tela protetora contra insetos) para as janelas. Diego fez também um maravilhoso suporte de madeira para a mesa de jantar (pois a dona da casa só tinha o tampo), fez outro suporte para a bancada do escritório dele, cavou uma trincheira para evitar que a água da chuva entrasse em casa, ou seja, implementou várias melhorias na casa, além de ter ajudado a carregar armários, sofá e aquecedor que ela conseguiu emprestado com amigos. A dona da casa era um outro problema, bem grande. Uma carente emocional de carteirinha. Por várias vezes a consolei, ouvi suas lástimas e a deixei chorar no meu ombro. Mas fui me cansando, pois ela (inconscientemente, quero acreditar) suga toda e qualquer energia disponível ao seu redor, demanda demais de todos. Como em St.Andrews não há transporte público, eu pegava carona com ela para ir e voltar da escola, pois as filhas dela estudam na mesma escola onde estou fazendo meu curso (http://www.steinerseminar.com/). Essa convivência diária esgotou minha reserva de disponibilidade emocional com relação a ela e me fechei. Evitava longas conversas, me atinha ao básico. Sou super grata a ela pois através de um livro que ela me emprestou (“The Key to Self-Liberation-1000 Diseases and their psychological origins” da autora Christiane Beerlandt) eu tive insights maravilhosos sobre a causa do vitiligo que apareceu no meu olho direito há cerca de 2 anos atrás – recomendo o livro! Bem, queríamos nos mudar de lá mas ficávamos receosos pois lá pagávamos pouco. Até que surgiu uma oportunidade para mim e uma colega de curso, a Manda, uma indonesiana fofa, limparmos o jardim de infância todos os dias após a aula. Meu primeiro emprego em Melbourne, que me rende quase 200 dólares por semana por 9 horas de trabalho. O Universo é perfeito: para pegar esse part time job necessariamente nós teríamos que nos mudar de lá, pois eu não teria como voltar para casa sem a carona dela. Maravilha! Teríamos 3 semanas até o início desse emprego para encontrar um novo lugar para morar. No mesmo dia em que comunicamos essa decisão a ela, já surgiu um novo inquilino, que é um sul-africano que faz o curso junto comigo. Ótimo, tudo fluindo. Começamos a procurar casa para alugar. As imobiliárias aqui são muito rígidas na análise de cadastro, e não foi fácil conseguir aprovação. Visitamos várias casas, fizemos várias aplicações sem sucesso. E lá se foram as 3 semanas: eu teria que começar a trabalhar mas não teria como voltar para casa. A solução que arrumamos foi alugar um carro, o que levaria uma boa parte do que eu receberia, mas seria apenas até nos mudarmos. Conversando com a Manda sobre isso, ela simplesmente olha para mim e me diz que tinha um carro para me emprestar!!! Não pude acreditar! E assim foi: na mesma semana em que comecei a trabalhar, também fiquei livre das desgastantes caronas. Lindo!!!!!! E nessa mesma radiante semana resolvemos aplicar para um casa cujo anúncio já havíamos visto algumas vezes, mas não nos animávamos pois o contrato de aluguel é de apenas 6 meses, ou seja, teríamos que nos mudar novamente ao fim desse período. Novamente, Diego e sua bela intuição, e… bingo!! Fomos aprovados! Nossa, felicidade demais! A casa é linda, a nossa cara, fica a 10 minutos de caminhada até a estação de trem e ao centro comercial local, e a cinco minutos de uma academia e parque aquático maravilhosos. Mas não tínhamos móveis e nem utensílios domésticos, apenas uma excelente máquina de lavar roupas que compramos por 40 dólares em uma garage sale. Nem foi preciso esforço. Ganhamos um cama japonesa linda e super confortável da Anne, que trabalha no escritório da escola, uma TV em excelente estado do Geoffrey, um professor da escola, e uma geladeira frost-free de 480 litros antiga mas em excelente estado de um cara gente boa que encontramos em uma outra garage sale, com quem estávamos conversando casualmente e dizendo que estávamos atrás de uma geladeira, e ele “Pode pegar minha lá em casa, pois compramos outra recentemente”. A mesa, também de excelente qualidade, encontramos perdida na rua, assim como o criado-mudo, uma poltrona fantástica e um aspirador de pó. As pessoas fazem muito isso aqui, colocam itens dos quais querem se desfazer na frente das suas casas e quem quiser pode levar. Os utensílios de cozinha compramos de uma colega de curso que queria se desfazer das coisas do pai que foi morar na China, e nos vendeu super barato. Em lojas de artigos de segunda mão compramos uma M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A máquina de café expresso por 17 dólares, um aquecedor por 5 dólares, uma torradeira Black & Decker por 4 dólares, e por aí vai. Assim montamos nossa casa. E estamos felizes demais, no nosso cantinho que é lindo!


Primeiro amanhecer na casa nova!!

Café da manhã: omelete, pão integral torrado com abacate e chá (!) + autobiografia do Rudolf Steiner + contrato de aluguel do nosso novo cantinho!!!!!! 🙂

Foto tirada de celular, já no nosso novo cantinho, pra mandar pro Igor, meu cunhadim querido!


A chegada

De Auckland para Sydney foram mais 3 horas de vôo e às 8 horas do dia 26 de dezembro pisamos em terras australianas, dois lindos, felizes e bastante jet lagged zumbis (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jet_lag; levamos vários dias para nos acostumarmos com a diferença de 13 horas de fuso horário). A nossa idéia inicial era deixar 7 dos nossos 8 volumes no locker do aeroporto e resgatá-las 3 dias após, quando voaríamos para Melbourne. Mas mudamos de idéia bem rápido, pois gastaríamos cerca de AUD 300 por dia. Conseguimos uma van bem grande para nos levar ao hotel, e não acreditamos quando enfim entramos no quarto, mortos de cansaço e vimos a linda vista da janela para a Sydney Harbour!

O quarto era espaçoso o suficiente para caber toda nossa bagagem, a cama enorme e super confortável, e o banho foi indescritível de maravilhoso. Apesar da vontade de dormir e da insistente chuva que não colaborou com nossos planos de curar o jet lag na praia, fomos caminhar pela cidade que é muito linda. Nesse mesmo dia encontramos com nossa amiga Ligia, que mora em Brasília, e estava curtindo férias em Sydney após concluir um curso de acupuntura na China. Nos encontramos num pub e foi ótimo encontrar alguém conhecido logo no nosso primeiro dia do outro lado do mundo! A chuva não parou de cair durante os três dias que ficamos na cidade, e fez frio também. Apesar de não termos curtido praia, passeamos bastante. Nos encantamos com a Sydney Opera House (confesso que chorei de emoção ao finalmente estar de frente para essa magnífica construção, pois era minha imagem-referência da Austrália), com o maravilhoso Royal Botanic Gardens, com a magnífica mistura da arquitetura histórica com a moderna, com o monorail, com o metrô de dois andares, com o verde esmeralda das profundas águas das diversas enseadas que banham a cidade, e Diego virou criança na imensa loja da Apple na George Street (entrou lá e ficou por umas 2 horas “brincando” com os últimos lançamentos).

Sidney Opera House

Macstore

Royal Botanic Gardens


Nós no Royal Botanic Gardens

(…) Por favor caminhe sobre a grama. Também convidamos você a abraçar as árvores, fazer piquinique na grama e falar com os pássaros (mas por favor não os alimente)!

Amamos isso! Nos sentimos acolhidos.

Relaxed australian way of life

Enquanto nos maravilhávamos com tudo isso, também buscávamos uma solução de como levar nossa bagagem para Melbourne após descobrirmos que não seria possível despachar pelo avião, pois em vôos domésticos o limite de peso é bem inferior ao do vôo internacional e o excedente nos custaria uma fortuna. De trem e de ônibus também não seria possível pois há um limite de dois volumes por passageiro – poderíamos despachar os volumes restantes por companhias de transporte de carga, mas demorariam a chegar e teríamos que retirá-los, pois eles não entregam – ou seja, teríamos que gastar uma outra fortuna de taxi. A partir desse quadro nada animador, a solução mais econômica seria alugar um carro bem espaçoso e colocar tudo dentro. Mas havia ainda um empecilho: para atender um requisito das locadoras de carros precisaríamos apresentar uma tradução para o inglês da carteira de motorista do Diego. Descobrimos isso no dia 27, ou seja, no dia seguinte após nossa chegada, um domingo, e poderíamos tentar correr atrás de um tradutor na segunda-feira, certo? Errado. Segunda-feira dia 28 de dezembro era feriado. Teríamos que deixar o hotel no dia 29 às 10 da manhã, quando vencia nossa reserva, a qual não poderia ser renovada pois não havia disponibilidade devido ao Reveillon. Puts, o que fazer? Decidimos pegar a lista telefônica e ligar para tradutores mesmo sendo um domingo – quem sabe algum tradutor tivesse divulgado o celular ou o telefone de casa na lista? Ligamos para uns dez números sem sucesso. Fechamos a lista com cara de desânimo e sem saber o que fazer. Aí Diego (sábio e iluminado como sempre) pega a lista de volta e decide ligar para pelo menos mais um número. E bingo!! Nos atende a Isabel Ruivo, uma portuguesa super simpática, que concordou em traduzir a carteira naquele mesmo dia e nos entregar no dia seguinte. Foi nesse dia que pegamos o metrô de dois andares para chegar até Bondi, num dia nublado mas para nós iluminado e radiante pois estávamos muito felizes por ter conseguido a tradução. No dia seguinte, 29 de dezembro, fizemos o check out e pegamos o carro alugado. O porta malas e o banco traseiro ficaram entupidos com nossas coisas. Diego, meu herói destemido, apesar de nunca ter dirigido em mão inglesa (banco do motorista do lado direito do carro), estava super empolgado com a idéia de dirigir pelas highways australianas nesses dois dias de viagem até Melbourne. Assim que pegamos o carro, ele já pegou uma contramão, eu desesperada avisei, ele voltou para a mão correta e nervosamente rimos. Após momentos de tensão até conseguirmos sair da cidade e pegar a highway, agradecemos ao Universo pelo primeiro lindo dia de sol desde nossa chegada na Austrália – um presente para brindar nossa viagem através de dois estados, de New South Wales até Victoria.



O durante

Voamos de Brasília para São Paulo, onde descansamos por 5 horas em uma suíte mínima mas confortável do hotel Fast Sleep, localizado dentro do Aeroporto de Guarulhos (http://www.fastsleep.com.br/). Nosso vôo para Santiago saíria por volta de 8 da manhã do dia 24 de dezembro e bem antes das 6 já estávamos na fila do check-in da Lan Chile. Havíamos despachado nossos 8 volumes com pesos variando entre 20 a 40kg pela TAM em Brasília. Na semana precedente ao nosso embarque havíamos ido pessoalmente ao balcão desta companhia aérea no aeroporto para obter informações sobre quantidade máxima de volumes por passageiro, bem como referentes limites de peso. Na ocasião fomos informados que “para nossa imensa sorte, o sistema de controle de bagagens da TAM estava sendo atualizado”, ou seja, não precisaríamos nos preocupar com limites e nem mesmo seríamos taxados por excesso de bagagem, haja vista que nossa bagagem iria direto para Sydney, nosso destino final. Ficamos super felizes e realmente nos achamos bastante sortudos. Qual não foi nossa surpresa quando a simpática funcionária da Lan Chile nos informou que além de termos que pagar cerca de US$ 500 por excesso de bagagem, teríamos que rearranjar os pesos dos volumes, pois nenhum poderia ultrapassar 32kg, e dois deles estavam acima desse limite. Resumo da história: após o choque inicial e a vontade de termos morado em São Paulo e não em Brasília, para não sermos alvos da famosa preguiça e incompetência de vários profissionais brasilienses com mentalidade de old fashioned servidores públicos, tivemos que esperar por cerca de 3 horas até nossos volumes serem liberados pela Polícia Federal – o que significa que perdemos o vôo. Assim que nossos volumes chegaram, montamos uma cena de feira ao lado de uma balança enorme da área de check-in: tivemos que rearranjar nossos pertences entre 4 volumes (o que significou R$ 200 de selagem de volume jogados no lixo), sempre checando o peso final, pechinchar (com sucesso) o significativo valor de excesso de bagagem, e embarcar para Santiago apenas às 6 horas da tarde, após passar a tarde perambulando por Guarulhos. A linda visão aérea da Cordilheira dos Andes foi um maravilhoso refresco para o nosso cansaço físico e emocional.

Era véspera de natal e o aeroporto de Santiago estava praticamente deserto. Havia apenas um restaurante aberto na área de embarque internacional, cujas migas e tapas estavam realmente sendo disputados a tapas. Embarcamos para Auckland às 23 horas. Diego sofreu um bocado durante as 13 horas de vôo, pois o espaço entre as poltronas não era suficiente para seus 1,86m de altura. Mas estávamos anestesiados e felizes.


O pré

O passo seguinte foi morarmos juntos, após 3 anos de namoro, e ver como funcionaríamos sob o mesmo teto – melhor pirar no Brasil, perto dos nossos terapeutas amados do que no outro lado do mundo. Começamos a procurar um apartamento de 2 ou 3 quartos para alugar. Chegamos a visitar alguns, mas ou eram caros demais ou muito mal conservados. Nesse meio tempo recebemos um e-mail da Joana, nossa amiga e terapeuta que tem uma preciosa lista de distribuição, sobre alguns móveis que estavam à venda. Como precisaríamos comprar vários itens como sofá, mesa, cadeiras, entramos em contato com a proprietária dos móveis e marcamos uma visita. Depois pensamos bem e decidimos não ir, afinal nem sabíamos onde iríamos morar, ou seja, ainda não tínhamos as dimensões dos espaços onde colocaríamos os móveis. Liguei para a Wilmenia para desmarcar e ela me disse que também estava alugando a casa, localizada a 12km de Brasília. Eu agradeci e disse a ela que dentro de um ano nos mudaríamos para a Austrália e que queríamos ficar o mais perto possível dos nossos amigos. No dia seguinte, uma sexta-feira, ela me liga insistindo para que víssemos a casa, pois era excelente e seria anunciada no próximo domingo. Fomos no sábado. E ficamos simplesmente impressionados com a beleza da casa – desenhada pela simpaticíssima Wilmenia, com o bom gosto dos móveis, com a perfumada árvore de jasmim do quintal, com a piscina, com a vista do mirante no terceiro andar. Andávamos pela casa admirando tudo, boquiabertos, mas certos de que jamais moraríamos ali, pois era uma casa enorme, o aluguel devia ser bem além do que podíamos pagar e além disso precisaríamos comprar muitos móveis para que a casa não parecesse uma casa fantasma. Agradecemos à Wilmenia, reafirmamos que dentro de um ano sairíamos do Brasil e que precisávamos economizar. Saímos de lá e fomos almoçar na casa da mãe do Diego. Após o almoço, enquanto folheávamos o jornal em busca de apartamentos para aluguel, a Wilmenia nos liga com uma proposta irrecusável: alugaríamos aquela casa de 4 quartos, com todos aqueles lindos móveis dentro e pelo preço que pagaríamos por um apartamento de 2 quartos!! Não acreditamos. Desliguei o telefone, chorando de emoção. Diego também ficou muito emocionado e juntos agradecemos ao Universo por essas sincronicidades, pela coisa certa acontecendo na hora certa.

O ano que vivemos lá foi maravilhoso e fundamental para polirmos anda mais nossos diamantes internos, ganharmos ainda mais consciência e crescermos enquanto indivíduos e consequentemente como casal. Fizemos animadas festas, almoços, jantares, curtimos nossos amigos, celebramos nossa felicidade, e agradecemos cada minuto vivido ao Universo. Recebemos o pai do Diego e meu irmão, os quais moram em Recife e Belo Horizonte respectivamente, e foram momentos maravilhosos! Tivemos a felicidade de ter uma ajudante fenomenal, a Clara (mesmo nome da minha mãe), que também foi um presente do Universo, fruto de uma outra sincronicidade sobre a qual contarei em outro momento. Como meu contrato no Monumenta venceria em julho de 2009, marcamos nossa ida para a Austrália para início de setembro, pois teríamos um mês para organizar tudo e partir. Em meados de junho, ao final de uma reunião, o Robson, Coordenador Nacional Adjunto do Programa Monumenta, me convidou para continuar na equipe até fim de novembro. Eu agradeci mas recusei, pois nossos planos já estavam traçados. Nesse mesmo dia no caminho para casa, Diego me pergunta o que eu achava de adiarmos nossa ida para dezembro! Sincronicidade. Quando contei a ele sobre o convite que eu tinha recebido, ficamos surpresos com a perfeição de tudo – aliás, ficamos sempre surpresos e encantados com esses presentes do Espírito, do Universo, de Deus, não importa o nome que damos a essa fonte de energia criativa,  de luz, consciência, amor. E agradecemos. No dia seguinte aceitei o convite, feliz da vida! Como o contrato de aluguel da casa venceria em setembro e iríamos sair de Brasília apenas em dezembro, precisaríamos de um lugar para ficar. Começamos a ficar atentos. Mas nem precisou de muito esforço, pois como num passe de mágica, a Ju (mais uma Ju?!),  inquilina do apartamento do Diego, decidiu rescindir o contrato antes do previsto pois estava de mudança para a Inglaterra! Viva!!! No dia em que ela desocupou o apartamento, fomos lá matar saudades. A Ju havia deixado interessantes postais pendurados no painel de fotos, dentre eles alguns com menção a meditação e esoterismo (que amo), e um com um macaco, signo chinês do Diego, segurando um painel com a letra K! Tudo bem, não vou dizer que ficamos surpreendidos, encantados e agradecidos, pois já estou ficando repetitiva.

Bem, esses últimos 3 meses antes da nossa partida em 23 de dezembro, foram de muita correria, tensão aguardando o visto que demorou quase uma eternidade, e despedidas. Despedir é estranho, principalmente quando se está indo para tão longe. Enquanto a pessoa ainda está ao seu lado, conversando, rindo, compartilhando amor, tenta-se curtir o momento e esquecer que daqui a pouco ela não estará mais ao seu lado. Abraçar pela última vez, sabendo que vai levar um bom tempo até que possamos novamente nos tocar, ver o brilho no olhar, sentir o cheiro, ouvir a voz, o riso, por vezes o choro, é quase cruel. Me emociono agora escrevendo essas palavras e me lembrando dessa sensação sentida tantas vezes nos dias que antecederam nossa partida. Mesmo sabendo que estamos todos ligados energeticamente, e que basta fechar os olhos e pensar na pessoa para senti-la ao seu lado, há a saudade da presença física. Despedir do meu irmão foi foda. Chorei convulsivamente de dentro do ônibus que me levaria até o Aeroporto de Confins, olhando para ele sem parar, sem querer acreditar que era verdade, até perdê-lo de vista. Despedir da minha avó também foi cruel. Entrei e saí do carro em Governador Valadares e voltei para abraçá-la algumas vezes. Despedir da minha mãe foi difícil, foi triste, mas também foi bonito, nutridor, pois ela me escreveu uma carta linda, onde declara seu amor e me pede perdão pois sabe que me fez sofrer. Foi a primeira vez que ouvi isso dela. Chorei muito, sentindo um misto de tristeza, saudade, alívio e paz. Foi um momento inesquecível. No mesmo fim-de-semana em que fui pra Minas despedir dos meus, Diego estava no Rio despedindo do seu irmão mais velho e do pai, a quem ele tanto ama e que nos deu um suporte fundamental no nosso processo de obtenção do visto, o qual jamais esquecerei e que tornou nosso sonho possível.  Usando palavras do Diego, a ficha da saudade imensa que ele sentiria do pai apenas caiu quando ele já estava a bordo do avião voltando para Brasília. Como Diego não pôde despedir pessoalmente dos meus e eu não pude despedir do pai dele, fizemos um video-mensagem para tentar suprir um pouquinho essa lacuna. O video foi gravado pelo Gustavo, nosso amigo, e a Vevê também estava lá no dia. Filmamos no apartamento do Diego.

Na véspera da nossa viagem a mãe do Diego, Vilma, que para mim é um misto de sogra, mãe e amiga, fez um jantar na casa dela, cuja atmosfera era de tentar curtir os “últimos momentos”.

 

Vilma e seus dois lindos filhotes 🙂

 

Posando pra uma série de não sei quantas fotos…

 

 

 

A despedida no aeroporto em Brasília foi também inexplicável de dolorida. Parecia um sonho, como se houvesse um véu permeando tudo. Despedir da amada Vilma, do meu queridíssimo cunhadinho Igor, e da minha pra sempre amiga Tati foi esquisito. Para o Diego então acho que foi pior (se é que existe uma sensação pior do que aquela que senti), pois ele ama incomensuravelmente a mãe e o irmão mais velho.

Tentando curtir os últimos minutos…

 

Passados esses momentos inexprimíveis através de palavras, aos poucos fomos preenchidos pela sensação de vitória, de sonho realizado, de desejo acalentado, suado, ansiado. A satisfação por termos conseguido chegar até ali, até o início da nossa nova vida na Austrália, nos tomou e ficamos meio que bestas, exibindo sorrisos patetas de pura felicidade. E nos parabenizamos, nos abraçamos e choramos de felicidade!


O início

O germe da idéia “morar na Austrália” surgiu a partir de uma sugestão do Kiko, um amigo mineiro a quem tanto amo e que também saiu de Belo Horizonte para morar em Brasília apenas 3 meses após minha ida em Setembro de 2000. Coincidência? Não, sincronicidade. Nós estávamos na beira do Lago Paranoá, num dia lindo de outono brasiliense, céu azul, nuvens “floquinho”, Astro-rei brilhando na medida certa e deixando lindos reflexos nas calmas águas do lago. O Kiko estava me contando sobre a Ju, amiga dele que mora há anos em Perth, oeste da Austrália, e simplesmente ama. E ele disse: “Ká, porque você e Diego não aproveitam o programa de imigração da Austrália?”. Eu achei interessante, comentei com Diego, mas ficou por isso mesmo. Talvez um ano depois (me desculpem, mas minha memória é tudo menos boa) a Juju (não a do Kiko), outra amiga linda e amada, a quem conheci após o meu processo de terapia (www.joanaefausto.com – site desenvolvido pelo meu maridão), e durante o dela, me disse numa conversa casual: “Kaká, eu vou fazer o curso de formação para ser professora Waldorf”, ao que eu prontamente, sem pensar, respondi: “Eu também!”. Esse era um momento em que apesar da proximidade do término do meu contrato temporário no Programa Monumenta do Ministério da Cultura, eu havia desistido da minha hiper ultra breve carreira de concurseira pública – estudei por apenas 3 meses para uma prova do MPU. Após o esperado insucesso no resultado da prova, me inscrevi num cursinho de Direito Constitucional de um professor conceituadíssimo, decidida a ter uma carreira estável, segura e bem remunerada na esfera pública. Ao fim da terceira aula, e após me perguntar várias vezes o que eu estava fazendo ali, fui pra casa do Diego desafogar a angústia que me massacrava por dentro. Me joguei nos braços dele, onde sempre encontro conforto e compreensão. Chorei, chorei e chorei. E também relutei. “Mas o que eu vou fazer da minha vida? O meu contrato vai acabar, vou ficar desempregada… bla… bla… bla…”. O Diego, calmo e sábio como sempre, apenas me disse: “Isso ainda não sabemos. Mas sabemos o que você não quer fazer. É um bom ponto de partida.” Nessa noite dormi tranquila, leve, aliviada por não precisar voltar àquela asfixiante sala de aula. Desse momento até a minha conversa com a Ju passaram-se alguns meses, durante os quais consegui aguardar tranquila e confiante o Universo me mostrar qual o caminho a seguir, o caminho da minha alma. E assim foi! Fui com a Juju conhecer a Moara (www.escolamoara.com.br/introducao.htm), única escola Waldorf de Brasília. Ah, foi lindo demais! Como boas cancerianas que somos, a cada sala de aula em que entrávamos, chorávamos e ríamos ao mesmo tempo, de pura emoção! Não tive dúvida alguma: eu certamente havia encontrado minha próxima profissão. Sempre amei crianças e através da Pedagogia Waldorf, a qual considera que somos também seres espirituais e respeita os ritmos de aprendizado das crianças, poderia dar a minha contribuição para tornarem-se adultos mais inteiros e seguros. Decidida então a tornar-me uma professora Waldorf, fui buscar mais informações sobre Antroposofia, ciência espiritual criada pelo austríaco Rudolf Steiner e base da citada pedagogia, e sobre o curso de formação de professores de São Paulo, no qual baseia-se o curso de Brasília. Durante minhas pesquisas, acabei deparando-me novamente com a Austrália e com as várias escolas Waldorf (aqui as chamam de escolas Steiner) espalhadas pelo país, algumas inclusive públicas (http://www.steiner-australia.org/school%20lists.html). Pronto! Juntei uma coisa com outra, meu curso de formação + programa de imigração da Austrália = nós iniciando uma nova vida na Oceania! Fui conversar com Diego e ele adorou a idéia de morar em outro país, conhecer uma outra cultura, arriscar-se.


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